Mário Tadeu Bruçó
(Palestra apresentada na V JORNADA PAULISTA DE GESTALT – “O Sagrado e o Profano na Psicoterapia” – Setembro/06 – Instituto Sedes Sapientiae – SP)
Na maioria dos trabalhos desenvolvidos por mim, atualmente, sejam os escritos ou como coordenador, tenho destacado a importância de se fazer referência à perspectiva de campo do psicoterapeuta e não só de sua análise do cliente, aspectos que o mobilizam e como lidar com isso, sua condição humana: a questão da presença do terapeuta, da inclusão, da alteridade, do compromisso com o diálogo, que é vívido, do “curador ferido”, etc.
Diria que não há “verdades” e, sim, caminhos a percorrer na busca do diálogo na relação psicoterápica. Partindo desse pressuposto, proponho abrir uma discussão acerca das situações, no setting terapêutico, que ficam meio que “obscuras”, no campo do “sagrado” (“não podem ser admitidas, são possivelmente intocáveis”) e ao mesmo tempo no campo do “profano” (“se forem admitidas, estaremos adentrando um campo perigoso, talvez até vergonhoso, e não saberemos como lidar”). Isso principalmente do ponto de vista do psicoterapeuta.
Exemplos clássicos, só para citar dois deles, são as situações de “quando o cliente ‘se apaixona’ pelo psicoterapeuta” ou, mesmo, e por que não dizer, “quando o psicoterapeuta ‘se apaixona’ pelo cliente”.
Há muitos outros exemplos que se “sacramentam” e se “profanam”, às vezes sem nos darmos conta disso.
Eu vejo poucas discussões a esse respeito na Gestalt-Terapia praticada por nós. Lynne Jacobs, no seu livro com Richard Hycner, Relação e cura em Gestalt-Terapia, desenvolve o tema da inclusão e da alteridade de forma útil, muito clara e interessante.
Acho que normalmente algumas situações ficam no campo do “sagrado/profano”, como se não existissem.
Devemos somente falar do que não nos expõe muito?
É claro que há todo um contexto ético que permeia esse e todos os outros conteúdos do setting terapêutico. Mas ao não serem tratados também fora do âmbito do setting, como reflexão, acréscimo ou ampliação da teoria, em discussões profissionais, talvez estejamos passando a mensagem de que prática e teoria não se integram para o efetivo Encontro psicoterápico entre pessoas.
“O terapeuta precisa sentir o outro lado, o lado do paciente no relacionamento (...). Os terapeutas devem estar disponíveis para se permitirem ser tocados e mobilizados pelo paciente (...) na terapia, a presença significa também que o terapeuta está disponível para se abrir a um tipo de contato, no qual o paciente pode tocar sua experiência subjetiva, tanto direta quanto indiretamente”. (JACOBS, Lynne. Relação e cura em Gestalt-Terapia, 1997, p. 201 e 203)
Seguindo essa linha de raciocínio de Jacobs, acho importante destacar a posição da presença e da alteridade no processo psicoterápico.
“(...) existe um ponto em que se tem a sensação concreta de que há mais no relacionamento do que se é capaz de descrever. (...)
A terapia é, em grande parte, um processo de desenvolvimento. Em diferentes pontos do processo, qualidades diferentes de alteridade são procuradas e necessárias para o crescimento do paciente ou para sua cura”. (Idem Ibidem, p. 204 e 206)
Crescimento que, acredito eu, está diretamente ligado à autenticidade da relação, o terapeuta trazendo a si mesmo totalmente para a interação, dando ênfase no encontro direto.
Nesse sentido, deve-se tomar muito cuidado com temas que podem se “sacramentar” na relação, pois talvez até remetam a processos que causam vergonha ou incômodo na relação, principalmente por parte do terapeuta. A postura, muitas vezes, acaba sendo de evitação, interrompendo o fluxo de desenvolvimento e de efetiva ajuda ao cliente.
Com esse tipo de postura, acredito que o terapeuta acaba por escolher os temas a serem explorados, tentando ficar num campo “protegido”. De tanto evitar, acaba por “profanar” a relação, boicotando o processo.
“Sabemos que os pacientes chegam até nós depois de terem sido frustrados em seus desejos de um encontro genuíno. Com freqüência sentem-se desamparados e sem esperanças de poderem, alguma vez, se relacionarem genuína e profundamente com um outro. E sabemos que esse tipo de encontro genuíno não é possível se o paciente não tem um outro genuíno com quem possa se encontrar.
(...)
Uma dimensão óbvia da presença do terapeuta é seu autodesvelamento (...). Em qualquer caso, é um momento, no processo terapêutico, em que o paciente é colocado face a face com a alteridade do terapeuta”. (Idem Ibidem, p. 207 e 208)
Nos últimos anos, tenho experienciado, com a maioria dos meus clientes, algo muito interessante.
Ao descobrir-me com um problema renal crônico, passei a lidar com essa questão de uma forma aberta, tanto em minha vida pessoal como na relação com meus clientes.
Sem deixar que isso me limitasse, apesar de não esquecer de colocar que em um ou outro momento isso pudesse acontecer (princípio de realidade, humanidade em processo), fui percebendo a incrível continência na relação.
Minha experiência e dor foram podendo servir de referência para os clientes entrarem em contato também com sua experiência e dor.
Uma outra postura, pela qual não optei, seria por um processo de “negação”, talvez por pudor, vergonha, preconceito, etc., excluindo tal realidade da relação com meus clientes. Nesse caso: “Não posso falar disso, pois a minha dor não importa”; “Isso vai atrapalhar”; “O cliente irá ver-me como fraco”; etc.
Estaria instalado um tema ao mesmo tempo ”sagrado” e “profano”. Essa postura pouco me ajudaria e pouco me daria força para estar inteiro na relação com meus clientes.
Creio eu que foi exatamente a minha postura autêntica, em foco a minha alteridade, que trouxe mais qualidade à relação com meus clientes. Foi quando pude efetivamente melhor ajudá-los.
Concluindo!
A relação cliente-terapeuta, sua clareza e autenticidade, são o substrato para a sua dinamicidade e sucesso. Isso facilita a abertura de possibilidades de “cura” daquele que procura nossa ajuda.
Em conseqüência, também o terapeuta é ajudado, no que respalda muitas vezes a relação: o óbvio. Aquilo que não pode deixar de ser admitido, com risco de comprometer todo o processo psicoterápico.
"Vários terapeutas se perdem no lado dos significados. Algumas vezes, seus pacientes vão embora sabendo muito sobre certas dimensões da relação e da auto-experiência; contudo, estão diminuídos de maneira profunda. (...) alguns terapeutas podem reverenciar tanto o inefável, que não ajudam seus pacientes a compreender o que pode ser reconhecido e aprendido sobre seus relacionamentos” (Idem Ibidem, p. 204)
Após esta exposição, quero deixar algumas questões para reflexão: “Que dificuldades encontramos nesse campo da busca da alteridade na relação cliente-terapeuta? Se temos, de que tipos são? Se não temos, como normalmente lidamos com as situações?”