Mário Tadeu Bruçó
(Artigo publicado na Revista de Gestalt, n. 11, São Paulo, Instituto Sedes Sapientiae, 2002)
RESUMO
A intenção, ao desenvolver este tema, não é fazer um tratado sobre o amor, mas refletir
acerca do vivido em consultório.A minha experiência pessoal e vivência amorosa estão
permeando o desenvolvimento do tema, percebendo-me muito mais disponível e flexível
nas relações com meus clientes. Aliás, estes são o objeto desta reflexão.A vontade é
de “pensar alto”, dividindo pensamentos, dúvidas, afirmações, medos, gratificações, limites
e possibilidades presentes no ato de Ser Terapeuta. E penso não ser uma função solitária,
mas conjunta, construída artesanalmente, passo a passo, na relação com cada cliente,
especificamente.Na minha experiência em consultório considero que, muitas vezes, a
pessoa que procura uma ajuda psicoterápica necessita recuperar, parece, a sua capacidade
de amar e ser amada. Assim, a atitude amorosa subjacente à relação cliente-terapeuta é
um bom caminho de instalação do diálogo para esse objetivo.
Dentre os diversos conteúdos que estão subjacentes ou que se manifestam na relação
cliente-terapeuta, destaco, para esta reflexão, a presença do amor. Amor compreendido
como uma atitude que acontece como que “por encanto” na relação entre pessoas,
importante e fundamental para uma construção qualitativa. Na relação psicoterápica, sua
presença se configura, na maioria das vezes, de forma subjacente, mas ao ser-lhe dado
espaço, surge como uma forma potencial de reconquista do Ser e de sua capacidade de
amar e ser amado, ajudando-o a equilibrar-se emocionalmente.Mas será que é um amor
igual aos outros e só a sua presença é suficiente em psicoterapia? Com certeza existe todo
um quadro de manifestações que se dá nesse contexto, mesmo porque é uma relação
dinâmica. Cada ser-aí presente é singular, significando que cada um tem uma forma
peculiar de agir e reagir.A relação psicoterápica é, então, baseada numa atitude, porparte
do terapeuta, de compreensão, aceitação e confirmação do cliente. Tal atitude
compreende a confiança no potencial do Ser que se apresenta, confiança na sua
capacidade de se autogerir e compreender-se na relação consigo e com o mundo.Essa é
uma atitude que considero amorosa por parte do terapeuta, tendo como suporte o diálogo
do cliente consigo e com o mundo, no qual a relação cliente-terapeuta está inserida. E
diálogo não é simplesmente uma troca de palavras. Pode existir diálogo genuíno no
silêncio.Assim, considero que amor e diálogo estão diretamente vinculados, pois numa
relação afetiva (como a que pode se dar na psicoterapia) é imprescindível uma construção
artesanal conjunta.
Como o terapeuta também passa a fazer parte do mundo relacional do cliente, ele se torna
um Outro potencial e referencial, ela disse estar “apaixonada por mim”. Importante destacar
que, para ela, era esperado que, após tal revelação, ela fosse correspondida na sua paixão.
Vi esse momento como muito especial, pois a para este, espelhando diferentes situações
da vida do cliente. Em relações de afastamento e aproximação, uma confiança maior vai
sendo estabelecida, e o vínculo se configura.Acadeia afastamento/aproximação,
desconfiança/confiança, monólogo/diálogo se delineia. Com uma maior auto-estima e
autoconfiança, o cliente pode experimentar-se e expressar-se em diferentes relações.Diante
dessa linha de raciocínio, é importante ressaltar que a atitude amorosa não pressupõe um
doar e receber ilimitados. Creio que saber como e quando aceitar ou não, colocar limites e
discutir possibilidades também são atos de amor. Principalmente se forem lidados de forma
a viabilizar o crescimento, o contato amplo, a caminho da transformação criativa pessoal e
relacional.Portanto, o amor presente na relação cliente-terapeuta é diferente de qualquer
outro. Foge da amabilidade convencional, havendo um grande respeito perante a essência
do Outro. Geralmente, a linguagem que o permeia é simbólica, pois fala-se de algo não
necessariamente definido. O que lhe dá corpo é o seu sentido na existência da pessoa.Ao
longo desta reflexão sobre a atitude amorosa subjacente à relação cliente-terapeuta,
recorro a subsídios pessoais e teóricos, principalmente os ligados à abordagem
fenomenológica-existencial, tendo como esteio a atitude dialógica como forma especial de
estar-aí.Assim, como pano de fundo do desenvolvimento do tema, farei o relato de um caso
atendido em consultório.Atendi, durante algum tempo, uma mulher com problema de
obesidade, que me havia sido indicada por um endocrinologista. Aparentava mais idade
do que realmente tinha (30 anos). Sua auto-estima era muito baixa e sua auto-imagem,
rejeitadora. Comportava-se de uma forma autodestrutiva, o que era vivenciado
principalmente através do excesso de alimentos, normalmente consumidos de forma
compulsiva. Quando, afetiva e emocionalmente, não se sentia bem, “invadia a geladeira”,
como se isso fosse “aliviar ou resolver sua angústia”. No entanto, a angústia permanecia.Ao
longo do processo psicoterápico, a sua história de vida foi sendo delineada. Ela falava de
uma vivência geralmente solitária: o pai morreu quando a cliente era adolescente; seu
contato com a família só acontecia de vez em quando, pois trabalhava em outra cidade.
Assim, muitas vezes se sentia rejeitada e abandonada.
Sua conclusão era
bastante pessimista: nada poderia ser feito por ela, assim como ela também não poderia
fazer nada por si. Apesar disso, estava procurando ajuda, já que veio à terapia. Sempre
desejou amar e ser amada pelas pessoas. Desejava, inclusive, encontrar um homem que a
fizesse feliz, pois acreditava que também o faria. Mas de alguma forma parecia julgar-se
sem esse direito. Suas fantasias e desejos nesse sentido eram significativos.
Numa
determinada sessão, depois de muitas tentativas em fazê-locliente passava a manifestar um
sentimento que julgava não possuir: a capacidade de se apaixonar.
Na situação de
relativa segurança do contexto psicoterápico, na relação comigo, quando pude receber,
ouvir, aceitar e confirmar a cliente (situações, talvez, raramente vivenciadas por ela), esta
foi resgatando tal sentimento.
Terapeuticamente fomos, passo a passo, trabalhando a situação, isto é, dando espaço para
a sua compreensão e elaboração, inclusive da possível “frustração” da cliente após ter feito
sua revelação. Havia suporte suficiente para lidarmos com tal “frustração”. O vínculo
psicoterápico e a relação com a cliente eram bons. Havia ternura e afeto significativos.
Comovia-me sua solidão. Defini claramente o meu papel psicoterápico na relação com a
cliente, sem deixar de lhe dizer sobre a sua importância para mim: acreditava que o
sentimento manifestado por ela era essencialmente verdadeiro, nobre e importante. No
entanto, eu não estava apaixonado por ela, mas tínhamos como entender a situação,
trabalhando o seu desenvolvimento e limites.Algum tempo depois o processo psicoterápico
teve de ser interrompido, pois a cliente teve de se mudar para outra cidade. Sugeri a ela
que continuasse o tratamento endocrinológico e iniciasse outro processo psicoterápico na
cidade para a qual se mudara.A emoção foi grande na despedida. Dei-lhe e recebi um
abraço forte. Sinto que houve a separação física, mas o vínculo
permanecera.Posteriormente recebi uma carta da cliente, na qual ela dizia que, “através
de mim”, descobriu que podia amar e ser amada.Creio que, a partir desse momento, a
cliente pôde entender, mais amplamente, a dimensão do que sentia e queria dizer com o
estar “apaixonada por mim”. Na verdade, funcionei como uma possibilidade relacional, na
qual pôde expressar sentimentos, desejos, necessidades e recalques. É como se
necessitasse, “através de mim”, na relação comigo, resgatar o amor inerente ao seu existir,
até então bloqueado. Enfim, recuperar a si, na totalidade.A atitude amorosa na relação foi
fundamental para que a cliente pudesse manifestar-se enquanto Ser capaz de amar.
Principalmente pelo fato de não ter podido experimentar, no seu existir, esse fluxo de
amor, contextualizado em psicoterapia e presente no fato de ser ouvida, aceita e
confirmada. Tal relação não era muito fácil, pois a cliente às vezes parecia necessitar de
coisas que eu não podia lhe dar. Nesse momento, diferentes realidades se intercambiavam,
mas o campo da realidade concreta era importante e necessário para a formação de um
referencial saudável para a cliente, em seu mundo.O fato de ela ter dito estar “apaixonada
por mim” assustou-me, em princípio. Uma indagação surgiu: “E agora?”.Penso que,
enquanto terapeutas, “Temos que nos contentar em remover do caminho, aqui e ali, uma
pedrinha, um obstáculo, para que aquilo que já está aqui, e que sempre formou a essência
do paciente, possa sair, por si (...)”. É indispensável, da parte do terapeuta, “(...) uma
dedicação co-humana especial (...), que não existe a não ser na situação analítica. Este
específico ‘Eros Psicoterápico’ é diferente do amor dos pais para com os filhos, diferente do
amor entre dois amigos, diferente do amor do sacerdote para com seus fiéis, ainda mais
diferente do amor tão variável entre os sexos (...). (...) Freud já salientou (...) os traços
essenciais desta forma de afeto co-humano (...). Escreve ele que uma psicoterapia terá o
melhor êxito se ela se suceder como que ‘sem querer’(...). Em outras palavras, o
verdadeiro ‘Eros Psicoterápico’ tem que se distinguir pela sua abnegação, disciplina e
respeito diante da própria essência do analisando (...)”. (Boss, 1981, p. 43-4)Concebo que a
atitude amorosa deve estar subjacente à relação cliente-terapeuta. E o trabalho
psicoterápico deve levar em consideração a sutileza do que está sendo possível configurar,
numa linguagem construtiva artesanal que promova o diálogo cliente-terapeuta, a
caminho do Encontro efetivo.Diálogo que “(...) não se encontra nem em um (...), nem em
ambos, mas (...) em si mesmo, neste ‘entre’ que eles vivem juntos”. (Hycner, 1985a, p. 7) E
que deve ser entendido como: “(...) a resposta de um ser singular total à alteridade do
outro, aquela alteridade que só é compreendida quando me abro a ele em uma situação
presente e concreta, respondendo à sua necessidade até mesmo quando ele não se dá
conta de estar me requisitando”. (Hycner, 1985b, p. 9)
Nesse tipo de relação deve existir um Encontro que viabilize compreender o mundo do
cliente, por vezes desestruturado. O cliente necessita de alguém que possa ouvi-lo, aceitá-
lo como é e ajudá-lo efetivamente. O terapeuta, então, pode assumir um papel mediador
significativo para a reconstrução do mundo interno dessa pessoa.
Permeando essa
convivência está um aspecto superimportante nesse processo: a confirmação em terapia,
que está no cerne da “cura pelo Encontro”.
Confirmar o Outro é “convidá-lo” a se
revelar do jeito que é, na sua essência. Vale dizer que o Outro que se desvela, também
desvela o Ser do terapeuta. Este deve também responder como a própria pessoa que
é.“
A confirmação mútua é essencial para tornar-se um self - uma pessoa que realiza
sua singularidade precisamente por meio de sua relação com outros (...). Existimos
enquanto pessoas que necessitam ser confirmadas em sua singularidade por pessoas que
são essencialmente outras singularidades”. (Friedman, 1985, p. 1)
O amor aí circunscrito é peculiar à relação que se estabelece entre cliente e terapeuta. Por
um lado, os limites e possibilidades desse tipo de relação (que difere de outros do dia-a-dia
do cliente e do terapeuta) devem ser considerados. Por outro, a disponibilidade, a
aceitação ou não, o afeto presente, sempre tendo-se como foco a relação entre, que
remete ao mundo do cliente (foco do processo), mas também ao do terapeuta. Isso dá ao
terapeuta subsídios para enxergar a pessoa que está diante de si.
Destaco que não só o
cliente é “ajudado”, mas também o terapeuta o é, no âmbito do que o mundo daquele
remete ao mundo deste.
No entanto, “(...) o relacionamento não é completamente
mútuo, mas focado no aprendizado do paciente (este conceito é de Buber). E (...) o
terapeuta está totalmente incluído: sentimentos negativos, feedback da linguagem
corporal e sensorial, criatividade (criando maneiras de aumentar a awareness (...)”. (Yontef,
1998, p. 230-31)
Segundo o mesmo autor,“Awareness é uma forma de experienciar. É o processo de estar
em contato vigilante com o evento mais importante no campo indivíduo/ambiente, com
total apoio sensório, motor, emocional, cognitivo e energético (...)”. (p. 215) Esse momento
é um grande facilitador e transformador do processo psicoterápico.
Dessa forma, pode-
se dar espaço para uma atitude dialógica que, segundo Hycner, abarca o contexto
relacional geral entre pessoas, respeitando-se, como já se disse, a singularidade de cada
uma, em relações mútuas diretas e abertas. Nesse campo relacional, a confiança entre
cliente e terapeuta se estabelece, a qual pode bem ser considerada como o “amor humano
mais amadurecido”. (Boss, 1981, p. 43)
Sendo assim, concebo que só a atitude
amorosa não é suficiente dentro de um processo psicoterápico e na relação cliente-
terapeuta, mas fundamental para o trabalho a ser desenvolvido, juntamente com as
peculiaridades concernentes ao setting terapêutico.
Acredito que a psicoterapia busca
o equilíbrio emocional do cliente apoiando-se nas diferentes formas de diálogo no seu
existir, a caminho do Encontro possível. Assim, à atitude amorosa subjacente à relação
cliente-terapeuta, junta-se a crença, por parte do terapeuta, no Ser que está à procura de
ajuda, crença no seu potencial humano e relacional, à procura do “amor humano mais
amadurecido”, como diz Boss.
Referências Bibliográficas
ANGERAMI-CAMON, V. A. Solidão: a ausência do outro. São Paulo, Pioneira, 1990.BOSS,
Medard. Angústia, culpa e libertação: ensaios de psicanálise existencial. 3.ed. São Paulo,
Duas cidades, 1981.FRIEDMAN, Maurice. The healing dialogue in psychotherapy. New
York, Jason Aronson, 1985. Cap.10. Trad. Luiz Fernando F. R. Ribeiro, para circulação
interna no Curso de Formação em Gestalt-terapia do Instituto Sedes Sapientiae, São
Paulo. HYCNER, Richard. Gestalt-terapia dialógica: uma proposta inicial. 1985a. Trad.
Fátima Barroso, para circulação interna no Curso de Formação em Gestalt-terapia do
Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo. In: BUBER, M. The knowledge of man. New York,
Harper and Row, 1965. p.75.. 1985b. In: FRIEDMAN, M. S. The healing dialogue in
psychotherapy. New York, Jason Aronson, 1985. p. XVII.PELLEGRINI, Bernardo &
ABRAMO, Maria Angélica. Almanaque do amor: no fluxo da utopia. 2. ed. São Paulo,
Busca Vida, 1988.WEIL, Pierre. Amar e ser amado. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,
1965.YONTEF, Gary M. Gestalt-terapia: fenomenologia clínica. In: Processo, diálogo e
awareness: ensaios em Gestalt-Terapia. São Paulo, Summus, 1998.