Mário Tadeu Bruçó
(Artigo publicado na revista Sampa GT, n. 2, São Paulo, Instituto Gestalt de São Paulo, 2005).
Introdução
Este trabalho relata a minha experiência. Surge como pano de fundo da minha necessidade de expressar algo que tenho vivido há alguns anos, o que me propiciou ir-e-vir em diferentes direções de questionamentos existenciais.
Quero tentar ampliar minha reflexão, às vezes solitária, sobre os limites do corpo, o medo da perda do já conquistado, o pensar sobre a morte, a fragilidade da esperança, as dúvidas e impasses 3surgidos no caminho do reencontro comigo, através da cronicidade de uma doença do corpo. Será que também da alma?
Há alguns anos descobri que tenho um problema crônico renal, que poderá levar-me à insuficiência renal. Isso abalou-me sobremaneira.
Já vivenciei perdas significativas através da morte de entes queridos. Mesmo com o grande amor nutrido por tais pessoas e da dor sentida ao perdê-las, passei a entrar em contato, agora, com a minha própria dor, através de algo que estava acontecendo comigo.
À parte algumas poucas possibilidades de tratamento possível para parar o processo de evolução do quadro (que ainda tento hoje), vi-me diante de um impasse: tenho muito a construir, mas há dúvidas se o meu corpo o deixará (futuro incerto, medo, melancolia, angústia...).
Aos poucos fui redescobrindo em mim uma força intensa, aprendendo a conviver com a cronicidade do quadro, tentando resgatar em mim a esperança que soube não estar perdida. Então, proponho usar-me como instrumento para refletirmos juntos acerca de como temos diferentes formas de nos mobilizar diante de entraves inesperados do viver cotidiano, do que eu chamaria,“momento doente”, dos sentimentos daí advindos e sua ampliação como possibilidade de reconquista do Ser, a saúde em foco: o curador-ferido em processo.
A figura
O problema crônico renal foi descoberto em 1998, através de exames clínicos, uma doença auto-imune: uma glomerulonefrite global e focal, uma espécie de atrofia e fibrose dos rins.
No VI Congresso Brasileiro da Abordagem Gestáltica, ocorrido em Gramado, em 2003, comecei a esboçar o tema dos limites no cotidiano, a questão de quando questionamos como está nossa Esperança. O terapeuta como instrumento, como agente de transformação na relação com seu cliente, experienciando angústias semelhantes aos deste e seus prolongamentos existenciais.
A vida flui sem grandes intercorrências
Até então, o cotidiano parece integrado à minha existência: trabalho, relações, vida pessoal, etc.
O corpo integrado à vida: saúde?
Segundo o conceito de saúde em que acredito e penso que pratico, focado na Gestalt-Terapia, o organismo necessita estar integrado com seu meio, na situação presente, em processos de ajustamentos criativos às situações.
Isso quer dizer:
Com capacidade de lidar com obstáculos.
De resolver satisfatoriamente situações.
Ter conhecimento de necessidades.
Ser capaz de se abandonar à situação, no contato consigo e com a realidade.
Com um fluxo de experiência ininterrupto, desde a emergência até a satisfação da necessidade, que leva à auto-regulação.
O limite do corpo: doença?
“Estou doente”, pensei. Tive a tendência a colocar-me , diante do quadro, como um Ser passivo, à espera de um “milagre”. Acredito na corrente fenomenológica-existencial, que dá ênfase ao homem em relação, à sua forma de estar no mundo, aqui e agora, presente, cada vez mais consciente de si, a partir da experiência vivida agora e da certeza de sua extensão dentro de uma visão holística dele como homem e como ser-no-mundo.
Por outro lado, fui além no meu pensamento: “Sempre fui uma pessoa ativa, nunca fiquei esperando soluções mágicas ou que o Outro tomasse a iniciativa sobre a resolução da minha própria vida, apesar de esse Outro ser o mediador indispensável para que eu possa chegar à autêntica consciência de mim”.
De uma tendência diante do quadro, passiva, “doente”, pude perceber-me como Ser ativo, importante para o que poderia chamar de “cura”: a convivência com a cronicidade do quadro renal, mas representando um apego à vida, postura de não-entrega passiva, sadio.
Sadio enquanto atitude diante de uma “limitação”, acreditando na minha responsabilidade e poder sobre o meu processo e na possibilidade do melhor equilíbrio possível.
Esperança
Na maioria das vezes sempre acreditei na postura ativa diante da vida, mesmo diante de entraves do cotidiano. No meu caso, acionei os potenciais de “cura através da convivência com a cronicidade do quadro”. Então, “cura” não tem a ver com a “inexistência do problema”, mas sim com a capacidade de me autogerir na minha realidade limitante. Limitante, existencialmente falando, no sentido de colocar-me como Ser com dificuldade, mas com a Esperança, que me levou ao contato real e a atitude de fazer algo por mim: o que for possível, até mesmo no “supostamente impossível”
Vida e morte colocadas como possibilidades
Não há como, constatei isso na prática, ao se ver “doente”, não pensar em morte.
O Ser que acreditava antes com um “fim” não tão próximo, parece que ele se avizinhava.
Momentaneamente tudo o mais parece “sem sentido”, secundário, diante do momento vivido.
Mas só havia para mim, segundo a característica de minha personalidade, uma possibilidade: a de sempre tomar uma atitude diante do quadro difícil.
A minha atitude foi pelo Ser “sadio/doente”, foi pela vida enquanto postura de enfrentamento responsável, na minha singularidade.
Formas de tratamento: corpo e emocional holisticamente vinculados
Transitei por formas de tratamento homeopáticas e alopáticas, conjuntamente, o que acarretou-me diferentes reações emocionais ao lidar com cada situação especificamente.
Fui me dando conta de que a decisão deveria ser só minha, no final das contas, à parte os bons ou maus resultados de possíveis formas adotadas.
Impasse: independentemente do caminho que eu seguisse, não haveria como saber o resultado previamente.
Novamente recorro aos embasamentos em que acredito: organismo procurando equilibrar-se da melhor forma possível. Então, adequado mantê-lo assim. “Doença/saúde” o mais harmonizadas
A escolha
Depois de indas e vindas, a escolha recai sobre acompanhar as taxas renais com exames, remédio para pressão (somente este, depois de se ter aventado a possibilidade de corticoterapia, mas que poderia dar efeitos colaterais intensos), mudança de hábitos alimentares como, por exemplo, dieta hiposódica e de baixo consumo de proteína animal. Não fiz a opção pela corticoterapia.
Tal escolha foi difícil, mesmo considerando, dentro de uma visão fenomenológica-existencial, a minha liberdade responsável.
Sei que é o fato de fazer opções que constitui a essência do homem e lhe permite criar seus próprios valores. Ele é um Ser diante da escolha. Não há como não escolher. Assim, se ele é totalmente livre para escolher, é também responsável por tudo que faz. Mas não é um escolher isso ou aquilo, mas assumir-se e assumir. É ter um compromisso com a realidade.
Liberdade significa a capacidade de decisão sobre sua própria vida. E tem de ser uma decisão responsável, pois o homem vive num mundo concreto, que antecede a ele e que possui suas normas.
O criar seu próprio mundo, realizando suas próprias potencialidades, é também para o homem uma fonte de angústia.
O desespero do homem é ativo, obrigando-o a agir encarando a verdade diretamente, ainda que isso seja difícil. Ninguém pode realizar seu projeto por ele, o qual deve ser entendido como a procura de atualização da própria essência, do completar-se.
Mas em alguns momentos a minha liberdade parecia “irresponsável”, pois era uma decisão que fugia do esperado por um tratamento tradicional.
Experiências e questionamentos existenciais profundos
De questionamentos fatalistas em alguns momentos, passei, parece, a incorporar a minha crença no conceito de “doença” não como limitante, mas como prática e possibilidade de, associado ao conceito e prática de saúde, resgatar algo. Ainda sem saber o quê.
Aos poucos fui resgatando a auto-estima, uma vontade tremenda de ser produtivo, percebi aos poucos que a qualidade do meu trabalho melhorava, a minha afinidade e prontidão para o Outro também.
Meu médico nefrologista costuma dizer: “Puxa, Mário, sua aplicação e força de vontade para assumir o controle do processo evolutivo do seu quadro são impressionantes. Você de fato assumiu o controle da situação, e o quadro crônico não te limita”.
Ah! Ajustamentos criativos sempre em processo
Costumo dizer ao meu médico que nunca coloquei tanto em prática conceitos em que acredito, mas que algumas vezes ficam mais restritos ao campo do teórico. Não é verdade que costumamos dizer: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”? Como se nós, psicoterapeutas, no papel de “curadores”, estivéssemos imunes às intempéries do cotidiano, não precisássemos também praticar o que dizemos.
Um desses conceitos é o de ajustamento criativo, a melhor forma possível dentro do evento “saúde/doença”. Possibilitando, com liberdade, coragem, ousadia e criatividade, encontrar o melhor jeito, a caminho do Encontro com um Ser que pode, quer e está se reconquistando, sem fatalismos.
Pois acredito que a reconquista do Ser está na sua atitude diante da vida, das dificuldades que se apresentam, encontrando formas de ajustes criativos às situações, mesmo na cronicidade delas, sempre tirando um aprendizado, que leva a uma prática e transformação do Ser.
Como uma transcendência do limite dado, sem perder o contato consigo, para encontrar outras formas de viver. Afinal: “Que vida eu quero viver? Tenho de escolher. A minha atitude irá demonstrar isso”.
Então, um...
Ser pessoa!
Ser limitado e limitante.
Ser equilíbrio.
Ser desequilíbrio.
Ser doente...
Ser sadio....
Ser para a Vida...
Ser para a Morte.
Ser produtivo.
Ser com medo...
Medo de Ser...
A reconquista do Ser!