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SOCIEDADE FAST-FOOD

Viviane Sampaio

Hoje, vivemos em uma sociedade fast-food. Tudo tem que ser feito de uma forma rápida. Trabalhar, comer, tirar férias, e por que não dizer, as relações amorosas e as amizades também. O princípio da alta produtividade do fast-food está impregnado em nosso cotidiano. Tudo começa e acaba com uma velocidade extraordinária na busca incessante do lucro, sucesso e do máximo de prazer a curto prazo.

Não há tempo a perder com conversas com os amigos, com pessoas que não alcançam uma boa rentabilidade no trabalho, com esposas ou maridos que não satisfaçam as necessidades um do outro e, muito menos, com sentimentos de tristeza, medo, angústia ou raiva. Todos que dedicam algum tempo para isso são demitidos. Demitidos do emprego, do casamento, da amizade e, até mesmo, da própria pessoa quando esta se depara com tamanha insatisfação na vida e adoece.

As relações pessoais e o próprio ser humano se tornaram descartáveis. Produtos consumíveis com prazo de validade. Quando há defeitos, devemos jogá-los fora ou repô-los o mais rápido possível. Para que perder tempo com um amigo que nos decepcionou ou magoou de alguma forma? Risque-o de seu convívio e busque um novo amigo. Provavelmente, o prazo de validade dele expirou. Para que tolerarmos uma esposa ou um marido que se recusa a atender todos os nossos desejos? Há tanta oferta no (super)mercado de relacionamentos. Troca-se de esposa ou de marido. Para que perder tempo investindo em um empregado que errou? Tempo é dinheiro. Melhor substituir o empregado.

É a ditadura do prazer imediato e inesgotável. Qualquer sinal de sofrimento, dor e desprazer não devem ser suportados. Pelo contrário, devem ser banidos a todo o momento que resolverem importunar a vida perfeita que imaginamos ser possível de viver. Como explicar esse fenômeno social?

Uma das formas de explicar é notar que nas últimas décadas a sociedade viveu uma revolução tecnológica. A velocidade da comunicação proporcionou uma alta capacidade de se fazer mudanças e, consequentemente, de se tomar decisões. Isso se refletiu na maneira de viver das pessoas. Imaginava-se que com a tecnologia a capacidade de resolver problemas aumentaria e haveria mais tempo livre para descansar e divertir-se. Hoje, as pessoas se comunicam mais e de forma mais rápida, porém têm menos tempo livre, mais problemas para resolver e mais dificuldade para entender o outro. Nesse panorama, coincidentemente, a indústria farmacêutica alcança recordes de venda com calmantes e a depressão e o pânico são os transtornos psicológicos que mais atingem a população mundial.

Penso que essa maneira que encontramos para viver demonstra a profunda incapacidade de permanecermos algum tempo na situação de incerteza. A dúvida implica em sentirmo-nos angustiados, sofrermos e não sabermos o que fazer momentaneamente. Por esses motivos, muitas vezes escolhemos por mudar e rápido. Não há uma reflexão sobre o porquê e o para quê da mudança e se esta será melhor para nós mesmos ou para os outros. Mas será que precisamos continuar sendo e agindo assim? Até quando viveremos como escravos dessa loucura desenfreada que o impacto da tecnologia impõe às nossas vidas?Como podemos desenvolver maior autonomia diante disso?

Pensar é a saída. Mudar para melhor leva algum tempo e implica em reflexão. É preciso ver que não é o ritmo alucinante imposto pela tecnologia em nosso cotidiano que deve comandar nossa vida. Somos nós que mandamos na máquina e que damos sentido ao seu uso. Entretanto, para invertermos a situação atual e retomarmos o controle de nossas vidas é preciso fazer uma descoberta. O sentido de nossa vida. Sem saber isso nunca ocuparemos a posição de chefe de nossas vidas.

Existem várias formas de descobrir o sentido da vida. Por exemplo, estudando filosofia ou fazendo psicoterapia. Nesta última, o paciente é ajudado a realizar reflexões sobre o sentido de sua vida e, conseqüentemente, aumentar sua capacidade de liderá-la. Descobre-se isso dedicando algum tempo para pensar sobre questões como “O que espero da minha vida?”, “Como quero que ela seja?”, “Ela está da forma como eu imaginava que iria ser?”, “O que já alcancei que é importante para mim?”, “O que tenho feito para manter isso na minha vida?”, “O que e quem é importante ou não para mim?”, “O que espero dos outros que escolhi de alguma forma para fazer parte da minha vida durante algum tempo?”, “Será que eles esperam o mesmo de mim?”, “Será que é possível esperar isso deles e vice-versa?” etc.

Você já pensou sobre isso? Você pode começar esse processo reflexivo sozinho. Coragem! Sente-se no banco da frente de sua vida e dirija-a como bem quiser! Lembre-se que a pressa nem sempre vai fazê-lo alcançar tudo o que deseja. Antes, você precisará descobrir o que está buscando e se isso é realmente bom no sentido de lhe trazer mais felicidade e prazer. Boa sorte!

Viviane Sampaio. Psicóloga de adultos, casais e famílias. Mediadora de Conflitos e Advogada. Pós-Graduação em Terapia Cognitiva (USP). Psicoterapia em inglês para estrangeiros. Supervisora Clínica de estudantes de psicologia e profissionais de saúde em geral. Consultora e Palestrante em Programas de Saúde e Desenvolvimento Humano.


 

 

 
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