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UMA QUESTÃO DE CIDADANIA

Mário Tadeu Bruçó


Cidadania. Cidadão. O brasileiro sabe e vive, no seu dia-a-dia, o verdadeiro significado e amplitude desses termos?

Em qualquer sociedade considerada razoavelmente sadia e matura, Ser cidadão é uma prática integrada no existir social e individual. Isso implica dizer que os direitos políticos e civis das pessoas, assim como seus deveres para com o Estado e os deste para com o indivíduo são cumpridos.

Segundo a Constituição do Brasil, todo cidadão tem direito a educação, saúde, alimentação, trabalho, etc. Mas a cidadania e esses direitos são aqui uma realidade prática?

Ser cidadão implica que acessórios como moralidade, respeito mútuo, cooperação e oportunidade de expansão criativa, com liberdade, estão implícitos.

Nesse sentido, qual é o quadro do Brasil, vivido mais intensamente hoje, mas que já se arrasta há décadas, talvez séculos? Como será que cada um se sente na sua brasilidade? Qual é a identidade do brasileiro? Há orgulho ao dizer “Eu sou brasileiro”?

Qualquer pessoa e qualquer povo sem identidade fica sem perspectivas futuras, sem um projeto de vida. O brasileiro sente-se com possibilidades, ou vê-se muitas vezes desmotivado, desesperançoso, frustrado na realização dos seus desejos e necessidades?

Qual é o futuro de um país onde o “correto” e “admirado” passou a ser aquele que se aproveita do outro (o “esperto”), na prática individualista, egoísta e corrupta do dia-a-dia? Em que tipo de sociedade estamos nos transformando?

Quais são as conseqüências para um país onde tribos indígenas são “aculturadas”, incutindo-se-lhes o “jeito branco correto de ser”, acintosamente desrespeitando-se o que lhes dá identidade: sua cultura e tradições?

Quais são as conseqüências para um país em que se queima um índio; mata-se um jornalista porque não se pode deixar que ele faça o seu trabalho de informar o cidadão; violenta-se uma mulher num ponto de ônibus, que só queria voltar para casa depois de um dia de trabalho exaustivo; etc., etc.

É possível construir um diálogo entre as pessoas num país onde pedestres e motoristas, sem cidadania, comportam-se no trânsito como se fossem inimigos, numa atitude comportamental desumana? Parecem até buscar algo drástico para si!

Qual é a seriedade e maturidade de um país onde os governos, sem cidadania, têm como prática principal e impune a corrupção desregrada, infelizmente assimilada por muitos?

Qual é a sanidade de uma sociedade que tem uma taxa de desemprego altíssima, que está se tornando individualista ao extremo, sem limites (em que acreditar?), sem identidade (que está se perdendo ao longo do tempo), que encara crianças em semáforos pedindo esmolas e pessoas caídas pelas ruas como um fato “normal”, corriqueiro?

Com certeza, tal prática institucionalizada compromete em muito o psiquismo das pessoas, e é isso que gostaria principalmente de ressaltar aqui.

O medo passa a tomar conta, surgindo pessoas fóbicas. A insegurança se instala, criando-se pessoas que se vêem limitadas, abaladas na sua criatividade, auto-estima e autoconfiança. Surgem comportamentos incompreensíveis e desumanos, conseqüências de abalos psíquicos. Há frustrações constantes, falta de perspectivas futuras, preconceito, desrespeito pessoal, etc. Um quadro se configura: falta de sentido no dia-a-dia, no existir (por quê? para quê? o que fazer? como fazer?).

Portanto, é necessário e urgente criar condições para que o Brasil, seu povo e instituições possam manifestar-se e possibilitar-se dinamicamente no seu existir. E isso é algo que vem de uma atitude não-imposta, mas construída com consciência, fazendo parte do jeito próprio de um povo, de uma nação.

Com certeza, as dificuldades fazem parte, pois é exatamente o fato de experienciá-las que nos dá possibilidades de visualizar e criar alternativas sadias para o bom convívio social, sem paternalismos. Tal prática deve ser construída no sentido de que as pessoas tenham suas necessidades básicas satisfeitas (saúde, educação. alimentação, trabalho, respeito, justiça, moralidade como atitude integrada no dia-a-dia), com participação responsável de cidadão, compromisso e cooperação mútua.

Não queremos uma nação formada por pessoas sem cidadania, estagnadas, feridas na sua essência de Ser e de existir em expansão na relação consigo e com os outros; enfim, comprometidas no seu psiquismo.

No entanto, é uma questão de cidadania.


 

 

 
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